Conheça detalhes do 1º CD de Kau Mascarenhas
 
A Bruxa do Silêncio

Era uma vez um povo barulhento que vivia a caminhar.

Na verdade não caminhava, fugia. Desde cedo aprenderam a temer a Bruxa do Silêncio.

Era difícil para aquela gente tão tagarela, imaginar que poderiam ficar sem falar, a partir do instante em que fossem pegos pela terrível bruxa.

"Que horror!", exclamavam os mais velhos.

"Que monstruosidade!", gritavam os mais jovens.

"Que grande absurdo!", diziam os que não eram jovens nem velhos.

E permaneciam correndo, alucinados, receando o poder da Bruxa do Silêncio.

E quanto mais corriam, mais tagarelavam e gritavam. Nem podiam escutar uns aos outros. Mas isso pouco importava.

Já estavam habituados a somente falar.

Era curioso como desde pequeninos aprenderam a temer a Bruxa do Silêncio, e era um medo que se passava de pai pra filho há séculos.

Diziam que ela era horrível, monstruosa e absurdamente má.

"Já imaginou se ela nos pega?", diziam os mais velhos.

"Já pensou se ela nos acha?", perguntavam apavorados os mais novos.

"Já lhes passou pela cabeça se ela nos torna seus cativos?", diziam os que não eram jovens nem velhos.

E prosseguiam correndo, horas mais rapidamente, horas mais lentamente; mas sempre barulhentos.

Uma mulher, na corrida, tropeçou e caiu. Continuou a tagarelar, só que dessa vez pedindo ajuda. Ficou no chão muito tempo a falar e resmungar esperando uma mão companheira que a levantasse.

Mas seus parceiros de jornada só tinham ouvidos para suas próprias palavras. E continuaram sua caminhada barulhenta e individualista.

Estavam caminhando juntos, mas eram, na verdade, absolutamente solitários.

A mulher resmungou, gritou e berrou, e só depois de muito tempo, quando percebeu que seus lamentos eram em vão e ninguém a ajudaria, levantou-se. Correu na direção do grupo gritando e berrando como era normal.

Um velho, sentiu-se cansado e reclamou, pedindo ajuda.

Queixou-se para os da esquerda, queixou-se para os da direita... Só recebeu outras palavras de reclamação em retorno, e que nada tinham a ver com a sua própria queixa.

Compreendeu que todos os seus companheiros só tinham ouvidos para eles mesmos.

O velho entendeu que esse também era o seu padrão, juntou as forças que não tinha e prosseguiu reclamando mais alto ainda. Berrava para si mesmo blasfêmias e impropérios, olhando para o umbigo.

Era engraçado mas só agora ele entendia o porquê de toda aquela gente, inclusive ele, ter orelhas tão pequenas, quase inexistentes.

Andaram e andaram, e continuaram andando, horas mais rapidamente, horas mais devagar, mas sempre fazendo barulho. Suas bocas nunca paravam...

Depois de vários dias, meses e anos, de longa e barulhenta marcha, fugindo da lendária Bruxa do Silêncio, a horda de faladores começou a descobrir uma paisagem diferente.

Estavam agora subindo uma colina forrada de bela manta de gramínea verde, que em alguns pontos era salpicada de pequenas flores de cor púrpura.

E no alto da bonita elevação eles puderam ver uma imensa torre.

Era uma torre de bronze, muito alta, tão alta que parecia tocar as nuvens.

Enquanto eles subiam a colina, iam também se admirando com a beleza das cores que a torre assumia ao ser banhada pelos raios de sol, quando o metal de que era construída ia refletindo a luz dourada do astro-rei.

Em suas paredes, milhares de pequenos orifícios em forma de orelha chamavam a atenção.

Cobriam boa parte das paredes externas da torre, de cima a baixo.

Naquele instante, quando quedaram em frente à estranha construção, algo inusitado começou a acontecer.

Eles passaram a sentir uma coisa esquisita e o barulho que faziam começou a diminuir.

Suas vozes desencontradas e em volume tão alto mudaram um pouco. Tornaram-se mais mansas.

Seus olhos, que miravam o umbigo e os pés a maior parte do tempo, se elevaram para contemplar a torre.

E então, eles começaram a entrar na construção.

Dessa vez disseram juntos, tanto os mais velhos como os mais novos e também aqueles que não eram jovens nem velhos: "Essa torre pode nos esconder e nos proteger da Bruxa do Silêncio".

E foram entrando um a um. Foram então se dispondo sentados na imensa escadaria em forma de caracol que havia no interior da torre.

E era curioso como através dos orifícios em forma de orelha o vento soprava de fora para dentro, cantando sons totalmente novos. E os sons ensinavam coisas, e eles iam experimentando assim uma forte aprendizagem...

Os sons que entravam na torre pelas orelhas esculpidas traziam a própria música da vida.

As vozes, os lamentos, os pedidos, os desejos, os sonhos, e todas as coisas que nunca haviam lhes chamado atenção, agora fluíam ... E eles, estranhamente, se deram conta de que podiam calar...

Calar para escutar...

E tudo o que ouviam começava a fazer sentido de uma forma absolutamente nova, profundamente rica, lhes trazendo uma maior compreensão dos outros e de si mesmos...

Pela primeira vez estavam todos calados, somente escutando.

E quanto mais escutavam, mais se banhavam por uma luz de indizível beleza.

E um milagre ia acontecendo: suas orelhas, antes quase invisíveis de tão pequenas, começaram a crescer.

Enquanto isso lá fora o sol se despedia, banhando o céu com tons avermelhados e alaranjados.

E o mais surpreendente aconteceu.

Montada num cavalo alado, que parecia ser feito do próprio pó das estrelas, desceu das nuvens uma bela mulher com os cabelos ao vento.

Era a dona da torre. Era a própria Bruxa do Silêncio.

Eles não sabiam, e na verdade nunca souberam, mas enquanto pensavam estar fugindo da Bruxa, o que fizeram foi caminhar para ela.

A mulher apenas sorria, altiva, enquanto ia descendo do seu cavalo. E pode presenciar emocionada o momento em que toda aquela gente foi saindo lentamente da sua torre. Estavam completamente renovados.

Agora a sua marcha era diferente. Sabiam calar-se nos momentos certos e falar nos momentos certos.

Alguns se abraçavam enquanto marchavam, alguns conversavam, dialogavam. Olhavam-se nos olhos, e algumas vezes, quando necessário, olhavam os umbigos. O certo é que tinham mais opções.

Finalmente estavam com uma profunda compreensão do que significava andar junto.

A caminhada não era mais barulhenta e sim harmônica e integrada. A lua e as estrelas já apareciam quando eles começaram a se distanciar da torre cantando em coro uma bela melodia.

E quando se afastaram e começaram a sumir no horizonte, a Bruxa do Silêncio, lentamente, foi entrando na torre, que era a sua casa.

Ela era, na verdade, a Fada da Felicidade.

(Kau Mascarenhas)